Um caso de rinorreia doce

Autores

  • Maria João Coelho Silva Unidade de Saúde Familiar Novo Cuidar - ACES do Alto Ave. http://orcid.org/0000-0001-9279-671X
  • João Manuel Almeida Dinis Unidade de Saúde Familiar Novo Cuidar - ACES do Alto Ave.

DOI:

https://doi.org/10.32385/rpmgf.v36i4.12596

Palavras-chave:

Rinorreia, Fístula de líquido cefalorraquidiano espontânea, Glicose

Resumo

Introdução: A fístula espontânea de líquido cefalorraquidiano é uma doença rara e de etiologia pouco esclarecida, havendo alguma associação com hipertensão intracraniana benigna. O diagnóstico nem sempre é imediato, podendo constituir um desafio, por poder ser uma doença facilmente confundida com causas mais comuns de rinorreia. A sua deteção atempada pelo médico de família é essencial para prevenir complicações potencialmente graves, como as infeções do sistema nervoso central.

Descrição do caso: Mulher de 64 anos, apresenta-se com rinorreia aquosa e tosse, com meses de evolução. Foram pedidos exames auxiliares de diagnóstico para despiste de patologia neoplásica, infeciosa e alérgica, cujo resultado foi negativo. A tosse desapareceu com a cessação do inibidor da enzima conversora da angiotensina, com o qual a doente estava medicada. A rinorreia aquosa permaneceu e meses mais tarde veio a assumir características que fizeram suspeitar de fístula espontânea de líquido cefalorraquidiano. A tomografia computorizada não revelou a fístula, mas a pesquisa de glicose no líquido nasal foi compatível com esse diagnóstico. Enquanto aguardava por consulta urgente de neurocirurgia, a doente desenvolveu meningite complicada com abcesso cerebral. A presença de solução de continuidade foi confirmada em ressonância magnética cerebral, associada a sinais de hipertensão intracraniana benigna. A doente recuperou sem sequelas e a fístula encerrou espontaneamente. Apresenta-se assintomática até à data, sem rinorreia ou recorrência de infeções do sistema nervoso central. 

Comentário: A suspeita de fístula espontânea de líquido cefalorraquidiano foi levantada com base na clínica apresentada pela doente, ainda antes de esta desenvolver complicações. Os exames de diagnóstico mais fidedignos para a confirmação desta entidade não estão facilmente acessíveis nos cuidados de saúde primários. No entanto, e apesar da medição da glicose no líquido nasal não ser o método mais recomendado atualmente, neste caso cumpriam-se os critérios para a sua fiabilidade, tendo sido um elemento fundamental para a orientação do caso. Perante uma entidade clínica rara, mas potencialmente grave, o conhecimento da semiologia e a correta utilização de recursos simples podem ser suficientes para a confirmação diagnóstica.

Biografias Autor

Maria João Coelho Silva, Unidade de Saúde Familiar Novo Cuidar - ACES do Alto Ave.

Interna de Formação Específica do 4º ano em Medicina Geral e Familiar.

João Manuel Almeida Dinis, Unidade de Saúde Familiar Novo Cuidar - ACES do Alto Ave.

Assistente graduado de Medicina Geral e Familiar.

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Publicado

2020-10-01

Como Citar

Silva, M. J. C., & Dinis, J. M. A. (2020). Um caso de rinorreia doce. Revista Portuguesa De Medicina Geral E Familiar, 36(4), 350–4. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v36i4.12596