Motivar o doente: um trunfo esquecido na adesão ao tratamento?

Autores

  • Ana Beatriz Medeiros Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Garcia de Orta https://orcid.org/0000-0002-9401-5611
  • Joana Teixeira Unidade de Alcoologia e Novas Dependências, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Lisboa, Portugal / Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa https://orcid.org/0000-0003-3211-7038

DOI:

https://doi.org/10.32385/rpmgf.v38i3.13325

Palavras-chave:

Motivação, Entrevista motivacional, Adesão ao tratamento

Resumo

A motivação do doente tem conhecidas implicações no seu processo de adesão ao projeto terapêutico. Na prática clínica, a parca motivação do utente dificulta a sua proatividade. Consequentemente, interfere negativamente com o cumprimento da medicação ou a adoção de estilos de vida saudáveis, prejudicando a abordagem de diversas patologias, sobretudo das crónicas. De um modo geral, os estudos revelam que a motivação do utente é um conceito largamente utilizado pelos profissionais de saúde, embora com uma definição imprecisa. Maioritariamente é encarada como um traço caracterial, que se traduz na dicotomia entre doente motivado/doente desmotivado, com um enviesamento para a segunda categorização. Esta perspetiva deposita apenas do lado do doente a capacidade da mudança, com consequências negativas para ambos os intervenientes da relação médico-doente. Porém, desde a publicação do Modelo da Entrevista Motivacional (EM), na década de 1980, têm sido documentadas técnicas específicas para aceder ao estado motivacional dos doentes, com vista à sua modificação. Tradicionalmente aplicados às perturbações de uso de substâncias, estes modelos têm mostrado benefício em diversos programas reabilitativos de doenças crónicas. O entendimento do estado motivacional do utente enquanto percurso dinâmico, permeável à modificação externa e passível de modelação por parte do profissional de saúde, aliado ao treino de competências nesta área, poderá melhorar prognósticos, aumentar a satisfação do utente e do profissional e reduzir gastos financeiros nos sistemas de saúde.

Biografias Autor

Ana Beatriz Medeiros, Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Garcia de Orta

Interna de Psiquiatria

Joana Teixeira, Unidade de Alcoologia e Novas Dependências, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Lisboa, Portugal / Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Assistente Hospitalar de Psiquiatria. 

Assistente Convidada da FMUL

Referências

Correas Lauffer J. Prazer e recompensa: os mecanismos da motivação. Atlântico Press; 2019. ISBN 9789898965684

Volkow ND, Wise RA, Baler R. The dopamine motive system: implications for drug and food addiction. Nat Rev Neurosci. 2017;18(12):741-52.

Magrì E. Emotions, motivation, and character: a phenomenological perspective. Husserl Stud. 2018;34(3):229-45.

McCarron TL, Noseworthy T, Moffat K, Wilkinson G, Zelinsky S, White D, et al. Understanding the motivations of patients: a co-designed project to understand the factors behind patient engagement. Health Expect. 2019;22(4):709-20.

Shankar S, Miller WC, Roberson ND, Hubley AM. Assessing patient motivation for treatment: a systematic review of available tools, their measurement properties, and conceptual definition. J Nurs Meas. 2019;27(2):177-209.

Maclean N, Pound P, Wolfe C, Rudd A. The concept of patient motivation: a qualitative analysis of stroke professionals’ attitudes. Stroke. 2002;33(2):444-8.

Salvo MC, Cannon-Breland ML. Motivational interviewing for medication adherence. J Am Pharm Assoc (2003). 2015;55(4):e354-61.

Heath S. Top 4 motivation techniques for health improvement [homepage]. Patient Engagement HIT; 2017 Aug 15 [cited 2021 Aug]. Available from: https://patientengagementhit.com/news/top-4-patient-motivation-techniques-for-health-improvement

Lie SS, Karlsen B, Oord ER, Graue M, Oftedal B. Dropout from an ehealth intervention for adults with type 2 diabetes: a qualitative study. J Med Internet Res. 2017;19(5):e187.

Klok T, Sulkers EJ, Kaptein AA, Duiverman EJ, Brand PL. [Adherence in the case of chronic diseases: patient-centred approach is needed]. Ned Tijdschr Geneeskd. 2009;153:A420. Dutch

Gudjonsson GH, Young S, Yates M. Motivating mentally disordered offenders to change: instruments for measuring patients’ perception and motivation. J Forens Psychiatry Psychol. 2007;18(1):74-89.

Miller WR. Motivational interviewing with problem drinkers. Behav Psychother. 1983;11(2):147-72.

Serebrenic F, Lima DR. Rumo aos 40 anos de entrevista motivacional: evolução da abordagem [Towards 40 years of motivational interviewing: evolvement of the approach]. Mudanças Psicol Saúde. 2019; 27(2):45-52. Portuguese

DiClemente CC, Prochaska JO. Self-change and therapy change of smoking behavior: a comparison of processes of change in cessation and maintenance. Addict Behav. 1982;7(2):133-42.

Downloads

Publicado

2022-07-07

Como Citar

Medeiros, A. B., & Teixeira, J. . (2022). Motivar o doente: um trunfo esquecido na adesão ao tratamento?. Revista Portuguesa De Medicina Geral E Familiar, 38(3), 322–7. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v38i3.13325