https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/issue/feed Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar 2022-04-29T14:13:24+00:00 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar secretariado@rpmgf.pt Open Journal Systems <p>A Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar é um órgão oficial da Associação Portuguesa de Medicina Geral Familiar. Visa contribuir para o desenvolvimento da especialidade de Medicina Geral e Familiar e dos Cuidados de Saúde Primários, através de uma publicação científica isenta, rigorosa e atual.</p> <p>É publicada desde 1984 com uma periodicidade bimestral.</p> https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13337 Infeções do trato urinário nos cuidados de saúde primários: estado da arte 2021-11-03T16:20:27+00:00 Gabriela Machado macgabriela@gmail.com Ana Marinho ana.marinho.2@hotmail.com Joana Afonso joanaidafonso@gmail.com Marta Freitas martaigfreitas@gmail.com Mara Silva mara2@campus.ul.pt Ricardo Coelho r.a.alvescoelho@gmail.com <p><strong>Introdução: </strong>A infeção do trato urinário (ITU) é a segunda infeção mais frequente da comunidade.</p> <p><strong>Objetivos: </strong>Determinar os micro-organismos responsáveis pelas ITU nos cuidados de saúde primários e do seu perfil de sensibilidade aos antibióticos, bem como avaliar se a abordagem das ITU está a ser feita de acordo com as recomendações da DGS.</p> <p><strong>Métodos: </strong>Estudo observacional e retrospetivo em quatro USF de Almada. Foram incluídos os utentes de idade igual ou superior a 18 anos<strong>, </strong>a quem foram codificados os problemas do ICPC-2 (U71-Cistite/Infeção Urinária Outra e U70-Pielonefrite/Pielite), de julho a dezembro de 2019. A recolha da informação foi feita através do programa informático SClínico e da plataforma MIM@UF. As variáveis estudadas foram: sexo, idade, tipo de ITU, pedido de urocultura, antibioterapia empírica, resultado da urocultura e teste de sensibilidade aos antimicrobianos.</p> <p><strong>Resultados: </strong>Das 963 ITU, 88,3% ocorreram em mulheres, principalmente entre os 68 e 77 anos (18,9%). O tipo de ITU mais prevalente foi a cistite não complicada na mulher não grávida (56,3%). A antibioterapia empírica foi prescrita em 86,7% dos casos, sendo a fosfomicina o antibiótico mais utilizado (58,6%). Foram feitos 405 pedidos de urocultura, na sua maioria com resultado positivo. O micro-organismo mais frequentemente identificado foi a <em>E. coli</em> (66,4%), sendo o mais prevalente em todos os grupos etários e nos diferentes tipos de ITU, e sensível em 63,7% dos casos à fosfomicina. Na análise global das diferentes unidades verificou-se que a urocultura foi pedida em concordância com a norma da DGS em 70,4% dos casos e que a antibioterapia empírica esteve de acordo com a DGS em 63% dos casos.</p> <p><strong>Conclusões: </strong>Neste estudo conclui-se que as ITU são mais frequentes nas mulheres entre os 68 e 77 anos. O micro-organismo mais prevalente é a <em>E.coli</em>, apresentando uma sensibilidade significativa à fosfomicina e à nitrofurantoína.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13091 Risco familiar, classificação socioeconómica e multimorbilidade em medicina geral e familiar em Portugal 2022-01-13T23:21:24+00:00 Renato Marques Bispo renatomb@sapo.pt Luiz Miguel Santiago luizmiguel.santiago@gmail.com Inês Rosendo inesrcs@gmail.com José Augusto Simões jars58@gmail.com <p><strong>Objetivos:</strong> Perceber se a avaliação familiar está preenchida e atualizada, conhecer o risco familiar e a associação deste e da classificação socioeconómica da família e multimorbilidade com os tipos de famílias estudados no ficheiro de um médico de medicina geral e familiar.</p> <p><strong>Materiais e Métodos:</strong> Estudo observacional transversal numa amostra aleatória representativa dos processos familiares de um médico de família no Centro de Portugal. Recolheram-se dados sobre a escala de risco familiar de <em>Garcia Gonzalez</em>, o Índice de GRAFFAR, o tipo de agregado familiar, o número de patologias crónicas classificadas pela Classificação Internacional de Problemas em Cuidados de Saúde Primários-2, o nível académico mais elevado dos membros da família, a existência ou não de isenção de taxas moderadoras por insuficiência económica e o número de elementos na família.</p> <p><strong>Resultados: </strong>Foram estudados 145 agregados familiares com uma média de 2,94 elementos por agregado. As variáveis que apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os diferentes tipos de famílias foram: o nível socioeconómico, a escolaridade, a distribuição SOCFAM, a escala de risco familiar de <em>Garcia Gonzalez</em>, o número de elementos por agregado familiar e o número de patologias presentes.</p> <p><strong>Discussão: </strong>Não possuindo dados de outros estudos com os quais comparar os presentes, as famílias que apresentaram maior risco foram as alargadas, unitárias e monoparentais, já as famílias reconstruídas e nucleares apresentaram melhores indicadores para risco mais baixo. Torna-se importante alargar este estudo para conhecer melhor a epidemiologia das famílias num contexto geográfico mais alargado.</p> <p><strong>Conclusão: </strong>O elevado risco familiar esteve associado ao tipo de família, ao nível socioeconómico e à maior multimorbilidade familiar.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13235 Sinais e sintomas em Unidades de Cuidados Continuados Integrados: um estudo em duas unidades de média duração e reabilitação 2021-10-14T18:31:57+00:00 Raquel Maria Armindo mcaraquel@gmail.com Marília Dourado mdourado@fmed.uc.pt <p><strong>Objetivos</strong>: Caracterizar o perfil sociodemográfico e de sinais e sintomas dos doentes internados em Unidades de Média Duração e Reabilitação (UMDR) da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e refletir sobre a adequação da referenciação para este tipo de unidades.</p> <p><strong>Métodos</strong>: Estudo quantitativo, descritivo, transversal, observacional e retrospetivo, realizado em duas UMDR do distrito de Leiria, com análise dos registos clínicos de todos os utentes internados de julho a dezembro de 2019, com recolha de dados sociodemográficos, dos diagnósticos principais e dos sinais e sintomas apresentados durante o internamento, com recurso à Classificação Internacional de Cuidados de Saúde Primários (ICPC-2). Foi feita a análise estatística descritiva usando o programa informático <em>Statistical Package for the Social Sciences</em> (SPSS), v. 27.0.</p> <p><strong>Resultados</strong>: Os doentes (<em>n</em>=141), predominantemente do sexo feminino, com média de idades de 78 anos, estiveram internados em média 3,1 meses (mínimo 10 dias, máximo oito meses). Os diagnósticos mais prevalentes foram: doença cerebral vascular aguda (28,4%), fratura do colo do fémur (16,3%), pneumonia adquirida na comunidade (5,7%) e fratura do trocânter (4,3%). Os sinais e sintomas mais prevalentes recaíram sobre os aparelhos/sistemas: musculoesquelético, nervoso/psicológico, pele, urinário, gastrointestinal, respiratório, circulatório e endócrino.</p> <p><strong>Conclusões</strong>: Os sinais e sintomas recolhidos enquadram-se nas patologias mais frequentes e são alvo de tratamento farmacológico e/ou não farmacológico. De acordo com os diagnósticos mais prevalentes, os doentes são encaminhados para programas de reabilitação, base das UMDR. O facto de a maioria dos doentes ficar internada por um período médio de três meses significa que se atingem os objetivos propostos para o internamento e que as intercorrências são, na sua maioria, resolvidas, o que permitiu a alta para o domicílio. Neste contexto conclui-se que, no geral, a referenciação é efetuada de forma adequada.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/12751 Privacidade e confidencialidade em medicina: o que diz o Regulamento Geral de Proteção de Dados sobre o acesso a informação de saúde 2021-05-06T19:11:16+00:00 Rodrigo Miguel Loureiro rodrigo.mrsp.loureiro@gmail.com Daniela Alves de Azevedo daniela.aa_24@hotmail.com Tiago Correia t.alpoim@gmail.com <p>A revolução digital nos serviços de saúde veio disponibilizar novas oportunidades para o desenvolvimento da qualidade da prestação de cuidados, investigação de novos tratamentos e uma melhor utilização dos recursos. A maioria da informação que presentemente é partilhada digitalmente, anteriormente era partilhada em papel, suscitando, assim, novos desafios e ameaças digitais ao nível da segurança e privacidade.</p> <p>Existiam cerca de 28 leis de proteção de dados diferentes baseados na <em>EU Data Protection Directive</em> de 1995, a qual foi desenhada há 20 anos atrás, antes da introdução generalizada da Internet e do crescimento das preocupações com a privacidade. Apesar dos avanços tecnológicos, a regulamentação existente permaneceu estagnada e cada vez mais inadequada para proteger os dados dos indivíduos ou das organizações. Dada esta necessidade foi desenvolvido e aprovado o Regulamento 2016/679, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de abril de 2016, relativo à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados.</p> <p>O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados veio introduzir alterações significativas ao enquadramento legal da proteção de dados pessoais dentro da União Europeia, estabelecendo regras relativas à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados. Estas alterações devem influenciar o modo de tratamento dos dados de saúde pelas entidades prestadoras de cuidados de saúde, quer no âmbito da prestação de cuidados de saúde quer para efeitos de investigação.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13112 Utilização de escalas de avaliação geriátrica no ACeS Oeste Norte: trabalho de melhoria contínua da qualidade 2021-08-24T20:28:25+00:00 Ana Rita Fontes da Costa arfc1992@gmail.com Marina Oliveira Martins marina.oliv.martins@gmail.com Ana Isabel Costa Medeiros Sá Rego ana.sa.rego@gmail.com Sofia da Silveira Luz Caiado Ferrão sofia_slcf10@hotmail.com <p><strong>Introdução</strong>: O crescimento da população idosa em Portugal é uma realidade importante. A avaliação do idoso engloba a utilização de escalas próprias validadas, sistematizando e facilitando o trabalho do profissional de saúde. Os autores têm a perceção de que existe pouca utilização de escalas geriátricas apropriadas na avaliação global do idoso. Os objetivos do estudo são: avaliar o conhecimento dos médicos do ACeS Oeste Norte relativamente a escalas de avaliação geriátrica; melhorar o conhecimento dos médicos do ACeS Oeste Norte relativamente a estas escalas; avaliar se se verificou melhoria no conhecimento dos médicos do ACeS Oeste Norte relativamente a estas escalas após a aplicação de estratégias de divulgação de informação.</p> <p><strong>Métodos</strong>: Estudo de melhoria contínua da qualidade pré-experimental, aplicado aos médicos internos de formação específica e especialistas de medicina geral e familiar do ACeS Oeste Norte, de tipo pré e pós-intervenção, integrando um ciclo de avaliação e melhoria, sem grupo de controlo.</p> <p><strong>Resultados</strong>: A maioria dos médicos raramente aplica escalas geriátricas na prática clínica. Após a intervenção verificou-se um aumento da frequência de aplicação das escalas. Registou-se uma melhoria estatisticamente significativa após a intervenção (<em>p</em>&lt;0,05) em sete das nove questões colocadas.</p> <p><strong>Conclusão</strong>: A aplicação de escalas de avaliação geriátrica é facilitadora do processo de decisão ao longo da avaliação dos utentes. Procurou-se colmatar erros que existam nesta área, promovendo uma contínua melhoria da qualidade dos serviços de saúde.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13042 Hipersexualidade na demência: uma breve reflexão crítica 2021-07-01T17:45:13+00:00 Magda Alves Simões magdaasimoes@gmail.com Mariana Ferreira Santos mariana.santos@arslvt.min-saude.pt <p>Nas últimas décadas verificou-se uma significativa mudança na estrutura etária da população correspondente a um progressivo envelhecimento, com aumento da incidência de doenças crónicas e degenerativas, incapacidades e dependências. Entre os problemas de saúde que acometem as pessoas idosas, as síndromas demenciais e as suas complicações, como a hipersexualidade, acarretam um marcado impacto na estrutura familiar e na sociedade, com fortes implicações na utilização de cuidados e serviços de saúde. Foi realizada uma revisão da literatura sobre a abordagem da hipersexualidade na demência, tendo-se concluído que existe pouca investigação sobre o tema e, consequentemente, orientações clínicas, o que gera dificuldades na sua identificação e abordagem. Pretende-se com este artigo promover a reflexão crítica sobre este problema e suscitar a sensibilização dos profissionais de saúde para o seu reconhecimento, abordagem adequada e realização de investigação para a criação de orientações clínicas.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13274 O burnout dos profissionais de saúde na pandemia COVID-19: como prevenir e tratar? 2021-07-12T12:23:14+00:00 Mariana Duarte Mangas mariana_mangas@hotmail.com Catarina Pedro Fernandes catarinap_fernandes@hotmail.com Ana Beatriz Cardoso bea.negocios@gmail.com <p>A atual pandemia veio exacerbar as fragilidades pré-existentes do Sistema Nacional de Saúde, onde o <em>burnout</em> dos seus profissionais era já uma realidade. O <em>burnout</em> é considerada uma síndroma relacionada com o trabalho, caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e baixos níveis de realização pessoal. Existem vários fatores que contribuem para o <em>burnout</em>, mas a sobrecarga laboral excessiva é citada como um dos fatores mais associados ao <em>burnout</em> dos profissionais de saúde. Esta síndroma leva a uma redução no desempenho profissional, com maior probabilidade de erro, maiores taxas de absentismo, menor compromisso com o trabalho, menor satisfação laboral, aumento do uso de álcool e drogas, exaustão física e problemas conjugais e familiares. Vários estudos apontam para percentagens consideráveis de profissionais de saúde que reportaram níveis elevados de sintomas de <em>burnout</em> durante a pandemia. Torna-se, portanto, imperioso abordar estratégias de prevenção e tratamento, que consistem em intervenções dirigidas aos médicos e intervenções organizacionais/ estruturais, com foco no ambiente de trabalho. A implementação de intervenções eficazes para prevenir e gerir o <em>burnout</em> nos profissionais de saúde contribuirá para o desenvolvimento de profissionais mais saudáveis, capazes de melhores resultados clínicos, com menos erros e encargos financeiros, levando a um funcionamento mais eficiente do setor da saúde, ainda que em contexto de crise.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13515 As pessoas idosas e os seus direitos 2022-04-24T17:19:32+00:00 Alberto Hespanhol hespanhol@netcabo.pt Paulo Santos psantosdr@med.up.pt <p>Nascemos, crescemos, vivemos, envelhecemos e morremos. É a inexorável Lei da vida.</p> <p>Do ponto de vista populacional, o envelhecimento é uma realidade recente. Com elevada prevalência de doença infeciosa, os séculos que antecederam o aparecimento das vacinas e dos antibióticos foram marcados por altas taxas de mortalidade infantil e valores de esperança média de vida à volta dos 30 anos. Ser idoso era uma raridade. No início do século XX, a esperança de vida à nascença rondava os 47 anos tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido. Só a partir da transição epidemiológica de meados do século XX é que assistimos a um aumento significativo da idade média da população e da esperança de vida, ultrapassando os 80 anos na média da OCDE, e da proporção do número de pessoas acima dos 65 anos, estimada em 17% para 2019 nos países da OCDE (22% em Portugal).<sup>1</sup></p> <p>As pessoas idosas representam agora uma fatia importante da população com consequências diretas na estrutura social. As respostas já existentes não previam esta realidade e mostraram-se desadequadas às necessidades atuais. Já em 1991, a Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu os direitos das pessoas idosas (Resolução nº 46/91, de 16 de dezembro): independência, participação, assistência, realização pessoal e dignidade.<sup>2</sup></p> <p>Num total de dezoito pontos, as Nações Unidas reforçam o papel dos idosos na sociedade atual em que cada vez mais pessoas atingem idades mais avançadas com um potencial ativo de saúde e funcionalidade, criando oportunidades de participação. Mas reforçam também o papel da sociedade no reconhecimento da necessidade de proteção, materializado no direito à assistência. Especificamente, os idosos devem beneficiar dos cuidados e da proteção da família e da comunidade com respeito pelo seu sistema de valores culturais ao nível dos cuidados de saúde e do acesso aos serviços sociais e jurídicos. Devem ter a possibilidade de utilizar meios adequados de assistência em meio institucional que lhes proporcionem proteção, reabilitação e estimulação social e mental numa atmosfera humana e segura e o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais quando residam em qualquer lar ou instituição de assistência ou tratamento.</p> <p>Foi no reforço destes princípios que, em 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o ano internacional para as pessoas idosas, alavancando o debate multidisciplinar sobre o envelhecimento e criando condições para o estabelecimento de políticas integradoras e capazes de combater a exclusão em função da idade. A discussão centrou-se no envelhecimento ativo, definido “<em>o processo de otimização de oportunidades de saúde, participação e segurança para melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem</em>”. Mais do que uma oportunidade para os idosos, o envelhecimento ativo aparece como um estilo de vida, promovendo o potencial de bem-estar físico, social e mental ao longo do curso de vida, bem como de participação na sociedade.<sup>3</sup></p> <p>Na mesma linha, a União Europeia “<em>reconhece e respeita o direito das pessoas idosas à existência condigna, independente e à participação na vida social e cultural”</em>,<sup>4</sup> como plasmado na <em>Carta dos Direitos Fundamentais</em><em> da União Europeia</em>, de 2000, e em numerosas iniciativas de onde se destacam os Parlamentos dos Idosos, no Luxemburgo em 1993 e em Bruxelas em 1996, valorizando o conceito de <em>Sociedade para Todas as Idades</em>, baseado no princípio de permitir aos idosos que possam permanecer integrados na vida laboral e social.<sup>3</sup></p> <p>Em Portugal, a Estratégia de Proteção ao Idoso, publicada em 2015, defende também o respeito pela dignidade da pessoa humana em todas as fases da vida, enquadrando as especificidades próprias do idoso no plano dos cuidados de saúde, do apoio social e do enquadramento familiar,<sup>5 </sup>ainda que na prática falte uma estrutura capaz de proporcionar este enquadramento, sobretudo quando a necessidade de assistência se sobrepõe à funcionalidade. Talvez por isso a solidão seja tão prevalente, com reflexo direto na procura de assistência médica, numa manifestação biofísica de uma dimensão predominantemente psicossocial.<sup>6</sup> Entraria aqui a ideia das comissões de proteção e promoção dos direitos dos idosos, já proposta para discussão na Assembleia da República (Projeto de Lei nº 526/VIII, de 2001)<sup>7</sup> e que na altura não avançou por se entender que a Rede Social existente bastaria para combater a problemática do envelhecimento,<sup>8</sup> não obstante terem sido criadas várias comissões locais nos municípios. Nesta altura, em que se discute a transferência de competências para os municípios, importa enquadrar esta função numa perspetiva multidisciplinar, envolvendo a saúde, a assistência social, as forças de segurança, a educação, as estruturas da comunidade desportivas e culturais, a bem de uma sociedade integrativa e promotora dos direitos das pessoas idosas.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/12972 A importância do rastreio do aneurisma da aorta abdominal: a propósito de um caso clínico 2021-10-07T10:35:52+00:00 João Manuel Teles joaosoaresteles.1993@gmail.com Nuno Teles Pinto dr.nunotelespinto@gmail.com Hélder Sousa hmsousa@arsnorte.min-saude.pt <p><strong>Introdução:</strong> O aneurisma da aorta abdominal é mais comum em homens com idade ≥ 65 anos e com hábitos tabágicos. A principal complicação é a rutura, que apresenta uma elevada taxa de mortalidade.</p> <p><strong>Descrição do caso:</strong> Este caso clínico incide sobre um homem de 75 anos, ex-fumador, com hipertrofia benigna prostática, que recorreu a consulta programada com recorrência de queixas urinárias baixas. A ecografia vesicoprostática por via suprapúbica solicitada objetivou um aneurisma da aorta abdominal com cerca de 16cm de extensão e 11cm de calibre antero-posterior. O doente foi encaminhado ao serviço de urgência, tendo ficado internado e posteriormente foi submetido a correção cirúrgica deste aneurisma.</p> <p><strong>Comentário:</strong> Este caso reflete a importância da identificação precoce desta patologia em homens com idade ≥ 65 anos através da implementação de um programa de rastreio ecográfico, ainda não implementado em Portugal, mas já recomendado por várias <em>guidelines</em>. Sintomas urinários baixos poderão ser uma apresentação deste aneurisma.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13189 Hiperpigmentação da mucosa oral como apresentação da síndroma de Laugier-Hunziker: um relato de caso 2021-10-10T22:53:04+00:00 Rita Fernandes Ferreira rii.ferreiira@gmail.com Sara Alcobia Coelho saraalcobiacoelho@gmail.com Maria Inês Queiroz Gonçalves mariainesqueiroz@gmail.com Carolina Gil acascgil@gmail.com <p><strong>Introdução</strong>: As lesões pigmentadas da mucosa oral podem corresponder a alterações locais ou a manifestações de doença sistémica. Importa conhecer as principais etiologias destas lesões para assim identificar aquelas com necessidade de intervenção e tratamento atempado específico.</p> <p><strong>Descrição do caso</strong>: Relata-se o caso de uma mulher de 89 anos que, numa consulta de vigilância de diabetes, refere lesões pigmentadas na língua, com meses de evolução, sem dor ou outra sintomatologia associada. Foi referenciada a consulta de dermatologia para estudo, onde foi realizada biópsia de uma das lesões, cujo resultado foi compatível com mácula melanótica. Perante o quadro clínico e os achados anatomopatológicos foi considerado o diagnóstico de síndroma de Laugier-Hunziker (SLH). A utente foi informada da benignidade do quadro e da ausência de necessidade de tratamento.</p> <p><strong>Comentário</strong>: A SLH é uma doença mucocutânea, benigna, de caráter adquirido, que se caracteriza por múltiplas máculas hiperpigmentadas, mais frequentemente presentes na mucosa oral ou lábios e configura um diagnóstico de exclusão. O artigo pretende relatar uma síndroma rara, com manifestação dermatológica, e abordar o diagnóstico diferencial de lesões hiperpigmentadas da mucosa oral.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13191 Abcesso das glândulas de Skene: relato de caso 2021-12-09T13:08:21+00:00 Maria Beatriz Morgado mbmorgado@campus.ul.pt <p><strong>Introdução: </strong>Os abcessos das glândulas de Skene são raros e subdiagnosticados. O seu diagnóstico baseia-se na anamnese e no exame objetivo.</p> <p><strong>Descrição do caso: </strong>O presente caso clínico relata o seguimento de uma mulher de 26 anos que recorreu ao centro de saúde por surgimento de uma massa perineal <em>de novo</em>, sensação de esforço para iniciar a micção e repleção vesical. À observação apresentava uma massa procidente periuretral com 2cm de diâmetro, localizada na parede vaginal anterior, com envolvimento do meato urinário, aflorando aos grandes lábios. Foi colocada a hipótese de prolapso uro‑vaginal e pedido estudo ecográfico. Aproximadamente um mês mais tarde, a utente regressa à consulta por dor perineal intensa desencadeada pela introdução da sonda ecográfica endovaginal. Ao exame físico apresentava a mesma massa periuretral – agora com sinais inflamatórios locais francos e saída de exsudado purulento abundante pela uretra. O exame ecográfico efetuado não descrevia quaisquer alterações relevantes. Assumiu-se, como hipótese mais provável, a formação de um abcesso das glândulas de Skene. A utente foi então medicada com azitromicina e cefuroxima, com resolução do quadro.</p> <p><strong>Comentário: </strong>Os abcessos das glândulas de Skene apresentam-se como massas periuretrais, associadas a exsudado purulento, dor uretral e/ou alterações urinárias. A evolução temporal do quadro clínico pode ser crucial para o estabelecimento do diagnóstico. Uma vez estabelecido o diagnóstico preconiza-se a antibioticoterapia empírica, tendo em conta os agentes mais frequentemente implicados (<em>Escherichia coli</em>,<em> Neisseria gonorrhoeae</em> e agentes da flora vaginal). Deste modo, perante uma massa periuretral dolorosa em utentes do sexo feminino, a lista de diagnósticos diferenciais deverá incluir a hipótese de abcesso das glândulas de Skene, de forma a não perder a oportunidade de tratamento precoce.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13227 Rabdomiólise precipitada por hipotiroidismo iatrogénico 2022-02-09T12:02:08+00:00 Joana Fechado Nunes joanafechado@gmail.com Sofia Feijó Correia sofiacorreia@pm.me <p><strong>Introdução: </strong>A rabdomiólise é uma síndroma com várias etiologias. O médico de família (MF) pode contribuir para a sua investigação e para a articulação dos cuidados de saúde (CS) neste quadro, sendo fundamental uma boa acessibilidade aos CS e o acesso a meios complementares de diagnóstico (MCDT).</p> <p><strong>Descrição do caso: </strong>Utente do sexo feminino, 50 anos, com antecedentes de hipertensão arterial e hipertiroidismo tratado com iodo radioativo. Em 2019 recorre três vezes à consulta aberta num espaço de dois meses, por ausência da sua MF. Queixava-se de mialgias generalizadas, não tendo sido feita investigação complementar. A 11 de junho de 2019 dirige-se por sua iniciativa ao serviço de urgência (SU) por anasarca, toracalgia e dispneia, sendo diagnosticada rabdomiólise com indicação para estudo pelo MF. É observada pelo MF a 26 de junho, que pede análises e ecocardiograma, sendo diagnosticado hipotiroidismo iatrogénico por terapia com iodo radioativo. No mesmo dia é feita articulação telefónica com a endocrinologia e suplementação com levotiroxina. Na consulta com a MF, a 17 de julho, mantinha anasarca, dispneia e fervores bibasais na auscultação pulmonar. Por suspeita de insuficiência cardíaca descompensada e impossibilidade de realizar doseamento de NT-Pro-BNP foi encaminhada para o SU após contacto telefónico. Lá fizeram o seu doseamento, que era normal, excluindo-se esta patologia. A utente manteve-se medicada com levotiroxina, com valores flutuantes da função tiroideia, que apenas normalizaram após um ano.</p> <p><strong>Comentário: </strong>Os constrangimentos na acessibilidade a CS e os atrasos no pedido de MCDT levaram a um diagnóstico e tratamento tardio, tendo contribuído a articulação telefónica da MF com diferentes profissionais para tornar o processo mais célere. A indisponibilidade de doseamento de NT-Pro-BNP nos cuidados de saúde primários levou a uma referenciação ao SU que seria evitável, caso este MCDT fosse comparticipado.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13152 Terá a teleconsulta impacto na morbimortalidade dos doentes com patologias crónicas? 2021-07-21T19:27:58+00:00 Inês Gonçalo Domingos inesgdomingues@gmail.com Ana Rita Gonçalves anaritamcg@gmail.com Inês Oliveira Dias inesdias.uminho@gmail.com Ricardo Jorge Silva rjpsilva@arsnorte.min-saude.pt José Rui Caetano Jcaetano@arsnorte.min-saude.pt Pedro Fonte afonte@arsnorte.min-saude.pt <p><strong>Objetivo:</strong> Determinar se existem diferenças entre o acompanhamento por teleconsulta e o acompanhamento habitual nos doentes com patologias crónicas, nos cuidados de saúde primários e secundários, no que concerne à redução da morbilidade e mortalidade.</p> <p><strong>Fontes dos dados:</strong> MEDLINE/PubMed, NHS Evidence, The Cochrane Library e Turning Research Into Practice.</p> <p><strong>Métodos</strong>: Pesquisa de estudos observacionais, ensaios clínicos e revisões sistemáticas nas línguas portuguesa e inglesa, publicados entre janeiro de 2000 e agosto de 2020, utilizando os termos MeSH <em>Chronic Disease</em>, <em>Telemedicine</em>, <em>Remote Consultation</em>, <em>Primary Health Care</em> e <em>General Practice</em>. Para avaliação dos níveis de evidência e da força de recomendação foi aplicada a escala <em>Strength of Recommendation Taxonomy</em> (SORT), da American Family Physician.</p> <p><strong>Resultados</strong>: Obtiveram-se 260 estudos, dos quais apenas oito cumpriram os critérios de inclusão. Cinco dos estudos revelaram benefício significativo na morbimortalidade com o recurso a teleconsulta, face aos cuidados habituais, nomeadamente: melhoria da qualidade de vida e diminuição do número de internamentos em doentes com múltiplas comorbilidades; diminuição de sintomas álgicos e depressão associados a dor músculo-esquelética crónica; diminuição da hospitalização e mortalidade por todas as causas e diminuição de recurso a cuidados de saúde adicionais no caso da insuficiência cardíaca. Dois estudos demonstraram resultados sobreponíveis entre os doentes teleconsultados e os doentes sob cuidados habituais, relativamente ao número de exacerbações e recurso a cuidados de saúde adicionais em doentes asmáticos, número e duração de reinternamento por doença pulmonar obstrutiva crónica ou insuficiência cardíaca e na mortalidade e recursos de cuidados de saúde adicionais nos doentes com múltiplas comorbilidades.</p> <p><strong>Conclusão</strong>: Esta revisão demonstrou não haver um consenso claro quanto aos resultados dos indicadores de morbimortalidade em utentes com patologias crónicas, acompanhados por teleconsulta. Ainda assim, a maioria dos estudos demonstrou benefício do uso de teleconsulta nos indicadores de morbimortalidade dos doentes acompanhados por teleconsulta relativamente aos doentes acompanhados por método habitual. Embora não consonantes, os estudos encontrados demonstraram resultados pelo menos sobreponíveis, e não inferiores, na utilização da teleconsulta quando comparada com o acompanhamento habitual dos doentes. E, considerando a qualidade dos estudos encontrados, são necessários mais estudos neste âmbito para aumentar a robustez dos resultados encontrados e permitir a generalização à prática clínica diária.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/13004 Alimentação vegetariana: da diversificação alimentar aos primeiros anos de vida 2021-06-13T18:14:18+00:00 Maria Vaz Cunha mariavazcunha16@live.com.pt Ana Luísa Fonseca Teixeira aluisafteixeira@gmail.com Ana Correia de Azevedo anacorreiaazevedo@gmail.com Ana Luísa Corte Real anabcortereal@gmail.com <p><strong>Objetivo: </strong>O vegetarianismo é cada vez mais comum e transversal a todas as idades, sendo que uma dieta vegetariana nas crianças requer especial atenção por forma a suprir as exigências nutricionais necessárias ao seu desenvolvimento e crescimento. O objetivo deste trabalho é rever a evidência sobre alimentação vegetariana nas crianças, particularmente da diversificação alimentar aos primeiros anos de vida.</p> <p><strong>Fontes de dados: </strong><em>National Guideline Clearinghouse</em>, NICE,<em> Canadian Medical Association Infobase</em>,<em> The Cochrane Library</em>, DARE, MEDLINE, TRIP<em> Database</em>, UpToDate, Índex das Revistas Médicas Portuguesas e Direção-Geral da Saúde.</p> <p><strong>Métodos: </strong>Pesquisa de normas de orientação clínica, revisões clássicas, revisões sistemáticas, meta-análises e artigos originais, utilizando os termos MeSH “diet, vegetarian”, “child” e “infant”, publicados em inglês ou português até junho de 2020.</p> <p><strong>Resultados: </strong>Até aos seis meses é recomendado o aleitamento materno exclusivo. Nos lactentes vegetarianos, o aleitamento materno é aconselhado até aos dois anos. Se necessário, deve utilizar-se uma fórmula infantil de proteína de soja ou arroz para os lactentes saudáveis com dieta vegana. O tofu fresco natural pode iniciar-se aos seis a sete meses. Deve-se ter em conta a disponibilidade de proteína, ácidos gordos essenciais, vitamina B12 e D, iodo, ferro, cálcio, zinco e fibra, bem como o aporte energético da dieta. As crianças vegetarianas com uma dieta ajustada têm menor risco de obesidade, menor exposição a antibióticos presentes em produtos de origem animal e um melhor perfil de adipocinas anti-inflamatórias.</p> <p><strong>Conclusões: </strong>Uma dieta equilibrada é fulcral para uma adequação nutricional e, ulteriormente, para um crescimento harmonioso. Embora a dieta ovolactovegetariana deva ser preferida em relação às outras dietas vegetarianas, o essencial é ter atenção à biodisponibilidade de nutrientes-chave e ao aporte energético. Assim, uma dieta vegetariana bem estruturada pode dar resposta às exigências nutricionais em idade pediátrica. O desenvolvimento adequado é preditor de uma dieta saudável.</p> 2022-04-29T00:00:00+00:00 Direitos de Autor (c) 2022 Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar